terça-feira, outubro 23

Enfermo

Alma calma que mata. Olhar de vento que transporta o que não sente. Lágrima que não cai, insistente. Paradoxo invisível no interior de um corpo mutilado pelo pensamento. Grito velado em rosto de expressão inquieta. O que é incerto? Tudo escrito num código indecifrável. Saber que a prisão do ser livre é sempre preferível à liberdade ilusória daquele que arrasta junto de si os grihões da culpa e do receio. Essa liberdade do rosto que controla o passo. O busto invisível sempre presente. Peito. Encher o peito, nem que não seja de ar. Tomá-lo nas mãos e apertar contra o corpo as suas formas arredondadas. Entumecer essa alma.

quarta-feira, outubro 17

Fora e dentro

Mediocridade que corrói. O ser pequeno que satisfaz a gula dos mamutes. A predilecção por se assumir aquilo que se teme por comodidade, evitando-se assim a dureza do pensante que dirime incansavelmente o âmago de cada decisão, de cada suspiro, de cada gesto, na busca perene pela transcendência que aos débeis oprime, uma vez que deixa de dar o que todos procuramos e passa a exigir a labuta mais árdua do espírito, que é a superação do alter, a não-criação de cenários lavados, a satisfação do irrealizável que se persegue, dia após dia. E eis que tudo se desmultiplica quando no cérebro enrugado o amanhã é o hoje.

segunda-feira, outubro 15

Imensidão

Escrever por sentir que o último suspiro de vida se esvai pelos poros; não ter, ao mesmo tempo, assunto; incapacidade latente do espírito; entumecer o ego sem motivo que o defina. Respirar apenas porque se abrem os olhos todos os dias, de madrugada. Alma calma. Confusão. Estado de acalmia progressivo. Sonhos. Cumprir os passos. Relancear o horizonte e sorrir perante o que se vai construindo para diante. Alegrar a mão mesmo quando ela não escreve o que deseja. O dia chegará; pela certeza do que é válido; pela convicção da vontade e da luta. Contracção. O dia que prescreve. Sim, sei que o caminho que trilho é o sucesso.

sábado, outubro 6

Fertilidade

Lápis em-punho e segredos escondidos na flor dos lábios humede- cidos. Sentir os minutos da noite que se sucedem em cavalgadas emudecidas de confissões não reveladas. A noção de que a palavra destino é inexistente no léxico prolixo que cresce em direcção ao rio. Não me canso de olhar nem consigo parar. Não quero. Não posso. Os veios da madeira que sustém os meus braços; talhos de carne putrefacta; loucura sane. A única saída é ser incompreendido; sim, procurar essa música como refúgio da guerra que lá fora estala. Saber o que rumina. Degolar a melodia e reter o que é lírico. Linhas. Linhas de mil sonhos. Sonhos pueris.

quinta-feira, outubro 4

Sangue alheio

Gosto de conhecer pessoas para ter a certeza de que não as quero; de que me servirei delas quando me aprouver e nada mais; de que poderei evolar-me e deixar para trás o chão que pisei; de que ficará o meu rasto nesse caminho tortuoso que percorri, indiferente a sorrisos e sons plangentes; de que a saudade não me corrói o espírito que fraco é quando assim o deseja ser; de que nada nem ninguém me fará, algures, recuar; de que o vazio é não raras vezes o preenchimento que procuro alcançar; de que sei ser sem que isso me faça sentir olhado de revés; de que conheço o que me aguarda e o que eu espero. Sou sangue, teu.

terça-feira, outubro 2

Vertigem

O corpo que dança no terreno de outro corpo. A tristeza sublime que obriga a amar mesmo sabendo que o amanhã trará o fardo da amargura que se estende na língua. Ser-se nobre por encomenda na perspectiva de deixar ossos na cela do espírito. A palavra que jamais é em vão. O significado implícito de cada uma delas, mesmo que apenas na nossa mente reclusa. A morte que chega sempre com algo por realizar. A caminho de alguém. O vazio. O vácuo que fica no corpo que desfalece para não mais acordar; a intercorrência da pena capital que vê o olho fechar, tímida, e a encara. A ela; essa que não escapa nunca aos dedos da terra.