sexta-feira, setembro 21

Sapatos de madeira

Já amei a descoberta e a carne. Já amei o aspecto e a posse. Já amei o intelecto e a novidade. Amo a essência pura de uma alma que brilha. Amo o irreproduzível. Amo o que não se alcança com a inteligência, não se descobre em algures, não se possui pelo desejo de se ter, simplesmente. O gesto carinhoso e melífluo da mão que embala o dia. A razão de ser pelo ensejo de cuidar de uma flor dita frágil. A lentidão da noite que encobre a cavalgada lenta e suada. O odor que paira no ar. A sensação de plenitude. Saber que se caminha para um fim, inexoravelmente; amando cada vez mais essa doce inevitabilidade. Apenas porque existe.

quarta-feira, setembro 19

Rasto

Porquê odiar? Ser invadido por pensamentos e sentimentos mefistofélicos e arrepiantes, querer o mal de alguém «só» porque essa pessoa nos causou sofrimento ou angústia, sem pensarmos, nesse caso, em nós próprios, na solução do nosso problema, a reconstrução que fazemos dos cacos que varremos sem voltar a colar ao corpo mutilado que deixámos para trás como um camaleão que não muda de pele mas a deixa em espessas camadas ao longo do caminho, como sinalização. Não se trata de crescer com o erro, de bater com a cabeça e seguir a sangrar, qual corpo que fica exangue; antes, reerguer os alicerces do eu.

terça-feira, setembro 11

Rostos

A solidão que nos encerra num casulo espectral. Lutar, não por não sermos capazes mas para lograrmos o objectivo que perseguimos. Olhar, relancear, percepcionar um estilo, uma marca ou um traço na personalidade pelo simples gesto de elevar a mão à anca. Ajeitar um tufo de cabelo desprendido na doçura do olhar. Saber que me encontro enclausurado em amarras ilusórias de um papel seco e gasto, vazio. Encarar a insuficiência e as lacunas que distanciam. Escrever as linhas soltas de um novo eu pronto e agir; sorver tonalidades, construir puzzles humanos e movimentar peões. Agitar cabeças. Escandalizar. E dizer que sim: que quero!

sábado, setembro 8

Embriaguez ímpia

Claro que ainda não tentei tudo, não vasculhei em todo o lado, terei paciência, jamais farei barulho ao remexer nos ossos do seu corpo, enfim, os velhos ossos da eterna noção de insuficiência que corta, sem cortar, que respira, ofegando, que olha escondendo o olhar por detrás da película com que proteje os olhos, por medo, receio, arritmia paroxísmica do corpo que vela a alma penada que em ti encontra repouso. A calma do silêncio que acalma, que reduz, sim, que ameniza o ritmo frenético que bombeia sem clemência o sangue no sentido inverso do caminho que deveria tomar, asando, alada. Nada que aos fracos prevaleça.

quarta-feira, setembro 5

Tempo inimigo

As relações não se medem ao comprimento. Não é por si só salutar aquela união que dura há vinte anos (ou durou um ror de anos). Pode perfeitamente ser menos valorosa - sentido amplo - se comparada com outra que durou apenas três meses, mas em que tudo se disse, tudo se fez e tudo se quis. Tudo? Sim, tudo o que havia para dizer, para fazer. A marca não pode ser deixada em função do tempo, sob qualquer pretexto; antes pela entrega e pelos frutos colhidos da mesma - a aprendizagem. Somos glutões em busca de mais. Ainda que, por vezes, esse «mais» nos retire essência e valentia. O tempo é usurário. E nós, seus cúmplices.

terça-feira, setembro 4

O abutre

- Não faças nada por mim. Tudo por ti - sorriu. - Um dia, se o tempo nos separar, manterás tudo o que conquistaste do meu lado. Porque é teu, fizeste-o para ti - apontou o dedo na direcção dela. - A memória não atraiçoará a tua essência porque ela será independente de mim. Como sempre o foi antes de eu existir. Esse é o segredo, não da mudança, mas da aprendizagem, da evolução, do querer. A vontade de sermos alguéns na nossa própria vida e não na vida de outros. Conquista a tua liberdade e, sem asas, procura voar. És uma pomba transparente. Algo que não se degusta. Um ser que se aprecia. Até ao dia. Esse dia.

Antropofagia

Os corpos servem para se comerem uns aos outros. Procurar o sossego das nossas vidas no alheio. As veias salientes do órgão entumescido. Como assassinos de almas podres, viver só mais um instante. Aliviar a dor da solidão que não é consciente. O túnel existencial que é o desconhecimento daquilo que é íntimo. A raiva por se ser incapaz. A acomodação por incapacidade. Procura-se permanentemente o que é fácil de atingir. O imediato. E prolonga-se a visão para além do que é visível. O ardor que remete os corpos para o sarcófago da experiência que não corrói as carnes. Elimina as almas. Digere-as. Lambe os beiços e segue, insaciado.

segunda-feira, setembro 3

Inquietação

É preciso sofrer na hora de sofrer. Quem não sofre não está preparado para viver. Plenamente. O sofrimento alberga em si mesmo a realidade do nosso próprio ser. Viver na alegria e sob a alçada dos momentos «bons» é para qualquer um - como na ilusão de um amor, tudo é fácil, admissível, passageiro. Ardiloso e verdadeiramente distintivo é ser-se capaz de encontrar a essência quando ela parece fugir aos nossos pés. Quando o que nos rodeia ameaça ter roído sem nos deixar esperança. Esse é o carácter. Essa é a busca incessante de quem procura e almeja a busca permanente do que é tido como impossível e inalcançável.