sexta-feira, agosto 31

Sanidade

O mundo é uma roda imensa. Eu, uma engrenagem. Já me senti menos parte do todo; já julguei ser esse «todo». Desejei, ao longo de vários anos, perceber as pessoas - saber porque são como são e não de outra forma; entender por que motivo agem como agem, entender o que sentem e porquê. Nesse sentido, pretendia «entrar dentro delas». Hoje, deixei as obsessões. Levo tudo num sorriso bucólico e folgazão. Não me preocupo mais. Sei que as pessoas sofrem por não se conhecerem, por não saberem lidar com os sentimentos, por serem mesquinhas, e por gostarem de sofrer. Eu não. Eu ultrapasso. Não assumo. Sei viver comigo.

quinta-feira, agosto 30

Perturbação lúcida

O sentido da insatisfação. O medo de se ficar a meio do caminho. Reconhecer. Fervilho interiormente, num frémito quase calamitoso; transbordo de plenitude porque encaro cada momento e cada situação como uma dependência de salubridade. Busco a matéria que não existe, o corpo que não exsuda odor. Saber que a perfeição é feérica e lírica. Partir para a conquista que me fará alcançar essa mão invisível. Sorrir a tudo que se fez passado. Viver intensa e imensamente o presente, sabendo como que por magia que o futuro será sempre melhor. É condição. É imperioso. Uma tal insatisfação que só terminará após o último resfolegar.

terça-feira, agosto 28

Palavras de medo

Teme-se quando se ama. Teme-se dizer que se ama. Distinguem-se palavras e verbos, tempos e conjugações. Limita-se o espírito e o alcance dos sentimentos. Receia-se perder parte do amor que se tem por já se ter amado alguém que, entretanto, se deixou de amar... O amor não se perde!, multiplica-se; apreende-se - aprende-se, na verdade. Tal como os odores, todos eles únicos. Nunca saberemos se o amor durará uma semana, um mês, um ano, ou uma vida inteira. E para que serviria saber? Para vivermos infelizes? Obcecados? Resta-nos, simplesmente, amar. Amar sem limites, sem concessões. Amar sem a certeza do amanhã. Amar.

segunda-feira, agosto 20

Linhas interiores

Um diário de bordo. Criação de estilos (ou falta deles) neste mundo oligárquico que é o meu cérebro. Encarar realidades e falar sobre elas. Acender uma lâmpada de 60 watt (só para os mais capazes e atentos). Escrever o pensamento. Dedilhar as convicções. Reflectir momentos. Ser igual a mim próprio e deixar-me levar pelo pensamento. Ausência de regras, de parágrafos, de preciosismos. Voar. Sem contextos; apenas conteúdos. Semelhanças ou diferenças (latentes). Sucessão de letras sem a forma. Espírito. Citar: «O resto, todo o imenso resto, faz parte do mundo ilusório que preenche de forma inelutável as nossas vidas.»