segunda-feira, março 10

Expiação

Também observo (no meu caso inúmeros) fenómenos engraçados neste mundo; quando esses fenómenos não têm sentido, deixo-os passar e desejo-lhes uma «boa viagem», seja ela qual for. Por outro lado, existem os que me interessam e que eu agarro com força. Por fim (e sendo necessariamente generalista), há um outro rol de «fenómenos» que me deixam uma sensação jocosa (a roçar a hilaridade) e que eu saúdo quando até mim vêm. Pois bem, uma vez que «este fenómeno» protagonizado se enquadrou numa dessas classes (e não foi na primeira, pelo que o teria deixado passar...), apraz-me tecer somente um ou outro dito mais aprofundado:
- deprimente seria se esses «superficiais» (que os há) não tentassem fazer algo para se esconderem (no sentido até de se valorizarem) da própria condição, mesmo que sob formas (pretensamente) vazias de conteúdo (e aqui teríamos que «julgar» conteúdos, o que é errado - a meu ver, claro está);
- as palavras eloquentes (que também as há), possuem (tal como as não eloquentes) distintos sentidos e, sobretudo, objectivos. Da mesma maneira que nos sentimentos, na arte, nos sentidos, há o «objecto» e o «espírito» (é como nas Leis do Homem - há o corpo e o espírito da Lei, como seguramente a Anciã saberá), nas e com as palavras o fenómeno é análogo. Deste modo, podemos, sem grande risco, afirmar que nem sempre conseguimos captar a verdadeira essência do que quer que avaliemos, não por incapacidade nossa mas por nos faltar esse tal «espírito» subjectivo. Não é uma limitação, é uma impossibilidade. Daí que haja, muitas vezes, formas escondidas e mensagens subliminares em todos os lados (mormente na arte da escrita, da pintura, até do cinema, da música, etc). As palavras eloquentes e áridas «do» verdadeiro sentido são, sim, as palavras que desdobram os efeitos pretendidos pelo «criador» das mesmas (vulgo crítica fácil, dedilhada a metro);
- uma pergunta introdutória para este derradeiro ponto: de que te serve a (eloquente) humildade? A ti, não ao Mundo; de que te serve? De consolo? De abrigo? Ou será um desejo secreto e muito muito recalcado? Humilde não é aquele que apregoa a humildade ou a falta dela; não humilde não é aquele que a ridiculariza (mesmo que tente) ou que a faça parecer insignificante. Humilde é SÊ-LO. Sem julgamentos de pretensa... humildade.
Serve o presente para, alegremente (sem deixar de agradecer o minutinho que dedicaste ao meu texto), dizer-te que precisavas de «dois minutinhos» para recolheres o seu (mesmo que ínfimo) espírito. O texto que encerrou este meu blog foi (com este já não o é, honra tua) uma apologia; não a mim, não à minha falta de humildade (que não a tenho, ainda assim - no entanto, este não a revela (a falta), de todo). Esse texto, lamentavelmente, é uma dedicação minha a 4 pessoas que desapareceram da minha vida e cuja falta sempre sentirei (com um sorriso no rosto). As últimas linhas, as quais «dediquei» a mim próprio, são indirectamente devidas (por obra de metáforas) as essas pessoas. A alegoria mestra de todo o texto é revelar que (sempre na minha opinião) somos seres permanentemente incompletos, quer seja nas paixões, nos desejos, nas motivações... Em tudo. O que nos torna superiores (não em altura, claro) é admitirmos essa condição e lutarmos por/contra ela - seja o conteúdo dessa luta, ou não, vazio. É preferível a luta abnegada por um caminho árido, àquela luta galharda que é realizada com os pés cravados no solo. Talvez seja um mero golpe de humildade, quem sabe.
Pena pena, não é ver desperdício de «tanto palavreado», antes vislumbrar (sob uma luz ténue) um conjunto tão reduzido de palavras cujo objectivo se centrou no egotismo (pessoal, porque até podia ter sido do alheio). Essa foi (é) a demonstração indelével de um desespero bem maior do que a tentativa de escondermos as nossas «formas» sem conteúdo. Nós, aqueles que aprendemos a «ser» com os que nos rodeiam, imperfeitos. Uns que vulgarizam essa nossa imperfeição; outros que a limam e adornam. Num sentido de comunhão. Nem sempre se é "ancião" neste mundo; raramente conseguimos ser «mais» do que aquilo que verdadeiramente somos. Não pela arrogância (explícita), mas porque «cá dentro» não admitimos quem somos. E isso, é uma doença. Chamada «ser humano».
Com eloquência me subscrevo.
O meu nome.

quinta-feira, fevereiro 7

Os três que Pê

O Fim,
E a confusão de sentidos, qual sinestesia. O encanto do acaso e da sua música odorífera. O prazer de passar a mão apenas pela textura. Confusão. A divisão em partes: duas. O elogio que me é devido e obrigatório (por inversão). E não são três, infelizmente, antes quatro. Quatro almas. Cada uma com a sua "magia" (lida em espanhol), a visão única.
O génio e a quase incompreensão, a dificuldade no convívio. O engrandecimento por tudo aquilo que aprendi. A doçura. O rosto alvar. A língua de seda e o colar que torneia o pescoço eterno. A anamnese do som, com e sem dentes. A trinca sublime de um estado febril. Ah, velha doçura...
A loucura da arrumação dos destinos. Panos cobertos de sensibilidade. A força oculta nas faces tolhidas mas nunca vergadas. Galhardia em tempo de meras amostras. O silêncio do recolher. Voz. Nome. Monossílabo. Pesar. Tristeza. Saudade. Falta imensa. Fidelidade terrena. Fruto que recolhemos, no hoje, no agora. Tributo à alma e ao espírito. Que falta nos faz...
É com isto que pretendo terminar; dar por concluída uma fase, somente. O epíteto. Considero ser um profundo diletante. Um amante daquilo que percorre o meu interior. O prazer do saboreio. O degusto. O aprofundamento necessário (não mínimo) ao sentimento. O domínio. A ambivalência. Não posso cingir-me a isto ou a aquilo, ao aprofundamento do que é parcial. Um. Dois. Vários. Nesse sentido, sou incompleto.

quarta-feira, dezembro 19

Corrente

Desvirtuado sentido. Imobilidade do medo. Perpétuo sabor a insatisfação na boca. Incapacidade em olhar e sentir o gosto pelo momento. Saudade. Não sinto falta de ninguém. Ou de nada. Ou dos alguéns que são nadas. Esses «obrigadas» vácuos e inocentes. Pó. Se o elixir continua dentro de mim, porquê (para quê) querer pintar as cores do meu rosto e do meu corpo com as tintas que secaram? A linearidade do corte do machado, a ríspidez do golpe, a longitude do adeus que não se esquece porque nunca se pronunciou. Não existe. Não houve olá. Sou incapaz. Com transcendência ou não. Sentimento ou não. Verdade ou não. Momento, apenas. É prazer. Prazer sem a carne que não desejo. Nunca.

segunda-feira, novembro 26

Mariposa

Linhas. Linhas de mim. Traços que encerram os meus contornos físicos. Porque sou eu quem cessa, não as pessoas. Sou eu que desapareço. Não sei se sei amar; se sinto com as mãos, apenas. Se procuro algo ou se sou procurado. Sei, porque sinto, que a motivação não é em mim que reside. A motivação da minha alma. Sou apenas carcaça. Balanço gingão de pulcritude que fito quando te encaro. Música surda em sorriso aberto. Toca de seda. As surpresas que fazem das nossas vidas pedaços de inevitabilidades. Talvez saiba mesmo. Saiba que o odor a ti me prende como jamais supus que pudesse prender. Que necessito da tua palavra e da tua boca. O teu calor. A tua sensibilidade dócil. A tua infinita capacidade de compreender. A inteligência que és, sentindo com o coração. Primavera. Folha que não cai. Preso. Preso a ti sem cordas. Juntos, é assim que nos quero. Sinto-te. «Preciso-te».

segunda-feira, novembro 19

Subversão

Sentimentos que se explicam não são sentimentos. São realidades quebradas por momentos inexplicáveis. Um mero frio interior de desconhecimento apioado por uma letargia insane; pavor medonho, como um sono comandado pelo receio sentido quando se teme perder aquilo que não foi conquistado, ainda. Uma mera projecção. O culto do invisível que transpira para lá do membro esfíngico. Uma alegria tímida, exterior. A química entre o nosso corpo e nós próprios. A fusão da alma perene. Confusão de sons imperceptíveis. Cacofonia. Grito estridente de perturbação. Escrever linhas de desespero quando o que submerge sobrevive.

quarta-feira, novembro 14

Doze Linhas

Cada história, cada filme, cada pequeno pedaço de vida sobrecarregado de dor, sofrimento, doença, separação. Morte. Entendemos as grandes obras como legados de experiências que nos magoam profundamente, que nos fazem chorar ininterruptamente até sermos incapazes de decifrar a palavra seguinte, tão embaciado o nosso olho fica. E, no fundo, havendo morte ou reconciliação, superação ou desilusão, sorrimos. Que capacidade tem quem escreveu isto! Mas… porquê? Porque reproduziu o quotidiano? Porque nos deu aquilo que enche e afoga a alma fatalista? Ou porque nos fez perceber, por instantes, breves, que somos apenas humanos? Um mero pedaço daquilo que acabámos de ver ou ouvir. Uma lágrima. Um triste fim.

terça-feira, outubro 23

Enfermo

Alma calma que mata. Olhar de vento que transporta o que não sente. Lágrima que não cai, insistente. Paradoxo invisível no interior de um corpo mutilado pelo pensamento. Grito velado em rosto de expressão inquieta. O que é incerto? Tudo escrito num código indecifrável. Saber que a prisão do ser livre é sempre preferível à liberdade ilusória daquele que arrasta junto de si os grihões da culpa e do receio. Essa liberdade do rosto que controla o passo. O busto invisível sempre presente. Peito. Encher o peito, nem que não seja de ar. Tomá-lo nas mãos e apertar contra o corpo as suas formas arredondadas. Entumecer essa alma.

quarta-feira, outubro 17

Fora e dentro

Mediocridade que corrói. O ser pequeno que satisfaz a gula dos mamutes. A predilecção por se assumir aquilo que se teme por comodidade, evitando-se assim a dureza do pensante que dirime incansavelmente o âmago de cada decisão, de cada suspiro, de cada gesto, na busca perene pela transcendência que aos débeis oprime, uma vez que deixa de dar o que todos procuramos e passa a exigir a labuta mais árdua do espírito, que é a superação do alter, a não-criação de cenários lavados, a satisfação do irrealizável que se persegue, dia após dia. E eis que tudo se desmultiplica quando no cérebro enrugado o amanhã é o hoje.

segunda-feira, outubro 15

Imensidão

Escrever por sentir que o último suspiro de vida se esvai pelos poros; não ter, ao mesmo tempo, assunto; incapacidade latente do espírito; entumecer o ego sem motivo que o defina. Respirar apenas porque se abrem os olhos todos os dias, de madrugada. Alma calma. Confusão. Estado de acalmia progressivo. Sonhos. Cumprir os passos. Relancear o horizonte e sorrir perante o que se vai construindo para diante. Alegrar a mão mesmo quando ela não escreve o que deseja. O dia chegará; pela certeza do que é válido; pela convicção da vontade e da luta. Contracção. O dia que prescreve. Sim, sei que o caminho que trilho é o sucesso.

sábado, outubro 6

Fertilidade

Lápis em-punho e segredos escondidos na flor dos lábios humede- cidos. Sentir os minutos da noite que se sucedem em cavalgadas emudecidas de confissões não reveladas. A noção de que a palavra destino é inexistente no léxico prolixo que cresce em direcção ao rio. Não me canso de olhar nem consigo parar. Não quero. Não posso. Os veios da madeira que sustém os meus braços; talhos de carne putrefacta; loucura sane. A única saída é ser incompreendido; sim, procurar essa música como refúgio da guerra que lá fora estala. Saber o que rumina. Degolar a melodia e reter o que é lírico. Linhas. Linhas de mil sonhos. Sonhos pueris.